Tenho alguma obsessão (por completa desacompanhada de meus CIDS) pelo derradeiro assunto do fim do mundo. Não me refiro ao pé da letra: da eco-ansiedade, ebulição global e tudo que lemos com-e-sem fundamento suficiente para qualquer discernimento necessário nas manchetes, mas…
No início da década de 20 do século XXI, peixes-remo foram capturados vivos em redes perto de Okinawa. Peixes longos, prateados, irreais na descrição das testemunhas. O menor tinha cerca de quatro metros de comprimento. Peixes enormes, em quantidades absurdas. No folclore, esses peixes são chamados de ryūgū no tsukai, mensageiros do palácio do deus do mar, e carregam a fama de subir à superfície antes de terremotos e tsunamis – e pouco interessa aqui a consistência que separaria folclore de sismologia.
Lembro que recebi a notícia, com vídeo (que não prova nada mais) de um amigo, seguida da frase: “Talvez o fim do mundo seja bonito e veremos.” Isso não diminuiu a brutalidade e encantamento da chuva de prata noturna da imagem. Daí só piorou tudo sob um conforto antigo de fim de mundo.
Porque não há sequer o conforto da profecia. O peixe não vem avisar. Não vem cumprir uma função. Tampouco nos coloca, enquanto sociedade, no centro da mensagem. Ele apenas sobe de uma profundidade que não nos pertence e aparece, prateado, excessivo, antigo, no lugar errado. Morre quase sempre. Ou é fotografado antes de morrer, ou é levado para um aquário, como se o mistério precisasse de vidro. Essa mania humana de achar que memórias e vestígios se tornam imaculados dentro de potes.
A minha obsessão? Procurar no corpo de um peixe a gramática da catástrofe.
Ver uma lâmina viva na praia e saber sempre que alguma coisa sabe antes de nós, alguma coisa nas águas se desloca antes que a linguagem consiga. Alguma coisa muda de profundidade quando o mundo começa a ceder. E ele sempre cede. Nós sempre cedemos, mesmo quanto tudo implica o contrário.
Minha obsessão retorna, paira, não dorme, está sempre no meu bolso esquerdo ou repousando debaixo do travesseiro: o que se faz com o fim, como se vive durante o fim? Uma intuição e um fato: o mundo sempre esteve para acabar, e o processo é lento. O fim raramente tem a elegância de se apresentar inteiro, o fim é perverso porque gosta tanto da lentidão quanto da catástrofe, e na mesma medida.
Ele vem por partes, arrebatamentos sim, também, mas por infiltração e por repetição. Um tempo depois, quando se olha para trás, percebe-se que o acontecimento já estava distribuído, sorrateiro, entranhado. Não houve começo, mas sempre há o fim. Há acúmulo, insuportável. Uma espécie de fuligem suja caindo dentro dos móveis, da língua, dos hábitos, daquilo que ainda chamávamos de normalidade por falta de palavra melhor.
Há uma diferença entre o fim anunciado e o fim vivido, os sonhos que não servem como jantar, mas alimentam o café da manhã de desesperados de olhos grandes e claros. O anunciado tem vocabulário próprio, especialistas, relatórios, gráficos, siglas, palavras novas para o medo antigo. O vivido não se organiza tão bem, nunca e jamais. Aparece antes como alteração de luz, meu jeito estranho de acordar, a impressão de que alguma coisa já aconteceu, embora nada tenha se mexido de lugar.
Penso no fim menos como acontecimento e mais como duração. Uma matéria espessa onde aprendo a respirar mal e não há exatamente um depois, porque o depois não se declara – tampouco existe. As coisas continuam, mas continuam de outro modo, e depois outro e outro até que se façam novas fabulações e previsões de datas exatas de um novo e outro fim.
Meu corpo que sempre entendeu primeiro e nunca pode mentir, passa a desconfiar dos cômodos, das notícias, dos entusiasmos, das promessas feitas em voz limpa e lúcida. Das clarividências, da fé dos homens, de ereções e da loja de doces da esquina.
O fim não vai explodir. Ele pode decantar. Pode fermentar, fazer ninho e seguir acontecendo enquanto as coisas continuam parecidas o bastante para que ninguém se autorize a gritar. E eu, sempre grito e acordo rouca – todo final de semana, ao menos.
O mundo sempre esteve para acabar, mas não igualmente para todos. Para alguns, o fim tem nome histórico, documento, fronteira, remoção, enchente, bala, fome. Para outros, aparece como abstração elegante, assunto de mesa, angústia bem informada. Não digo isso para corrigir a minha obsessão, mas para situá-la. Nenhum pensamento sobre o fim é inocente.
Imagino sim o fim do mundo como os tais peixes prateados aparecendo na praia do Japão.
Um peixe comprido, antigo, quase impossível, vindo de uma zona onde a luz não chega. O corpo dele brilhando na areia como uma notícia escrita em outra língua. No folclore japonês, o peixe-remo, peixe de profundidade, já foi tomado como mensageiro de terremotos, criatura que sobe do fundo do mar antes que a terra se abra. A ciência não confirmou a profecia. E talvez seja justamente isso que me interesse: não o peixe como prova, mas como linguagem do sempre impossível.
O presságio sem garantia. A imagem que não salva ninguém. O animal que vem do fundo não para explicar o desastre, mas para tornar o desastre imaginável. E o fim do mundo, às vezes, me parece belo porque não se importa com a moral.
A luz certa sobre a água errada
o corpo elegante do animal condenado
o céu ficando absurdo enquanto
alguma coisa queima.
Ninguém mais tem obrigação de montar ou sustentar cenas. No fim lento, ninguém é escolhido. Não há personagem principal quando a água sobe por todas as casas, ainda que não suba na mesma altura. Não há grandeza moral suficiente diante de uma catástrofe que é também administrativa, colonial, afetiva, climática, doméstica. O fim do mundo não é uma prova de caráter. É uma condição de matéria.
Mas há alguma coisa – coisa alguma.
Uma coisa menor, mais opaca e ao mesmo tempo tão irritantemente brilhante quanto os peixes. Uma inteligência de bicho que não formula tese. Um saber de raiz, fungo, osso, maré. Viver durante o fim talvez exija menos esperança e mais percepção. Saber quando a casa range, saber quando a boca seca, saber quando a beleza está tentando distrair você do perigo, saber quando o perigo, de tão antigo, virou decoração na parede principal da sala.
Penso que talvez estejamos tentando fabricar mitos adequados ao tamanho do estrago. Não mais deuses lançando raios, heróis, anti-heróis – que de nada sustentam o fim do mundo sem cenas, mas mapas de calor, relatórios, sensores, satélites, animais fora de rota, praias devolvendo criaturas que deveriam permanecer invisíveis.
O mito agora vem com dado. E ainda assim não basta. O dado informa, mas não necessariamente transforma. A catástrofe pode ser provada e ainda assim continuar sendo administrada como inconveniência. O fim pode ser medido, modelado, projetado, e ainda assim alguém vai perguntar se é mesmo para se preocupar agora. Há uma cegueira própria diante do absoluto. Não porque falte informação, mas porque a informação, sozinha, não atravessa ossos.
Penso nos peixes prateados outra vez.
Eles não vêm anunciar nada. Eles vêm encalhar.
Essa diferença importa. O anúncio ainda imagina destinatário. O encalhe, não. O encalhe é só a presença indevida de um corpo onde ele não deveria estar. Um animal de profundidade exposto ao ar. Uma mensagem sem remetente. Um brilho quase religioso sendo fotografado por curiosos antes de apodrecer, fétido.
Talvez o fim do mundo seja isso: uma sucessão de corpos fora do lugar. O peixe na praia. A árvore sem estação. A criança sem casa. A cidade sem sombra. O sono fora da noite. O desejo fora da promessa. A fome dentro da festa. A mulher dentro de uma vida que já não comporta a sua forma.
E, ainda assim, alguma coisa continua. Continua porque há processos que não sabem parar, o bolor continua, a lua continua, o cabelo cresce, os pelos insistem, o nariz rasga. A panela esquenta, o mar insiste em me devolver coisas. O corpo insiste em pedir água mesmo quando já perdeu a fé no passado e no futuro.
E assim foi e é, no desassossego maldito: vida não recebe autorização para ser interrompida. A vida segue não por esperança, mas por atrito – e atrito só porque ainda há corpos. Corpos cheios de indigestões, corpos suados, corpos exaustos, corpos nem um pouco vazios.
Não sei se isso é resistência. Desconfio e tenho desgosto por essa palavra. Às vezes é só funcionamento: é vício, às vezes é medo de cair de vez, às vezes é uma forma íntima de crueldade: continuar quando tudo em volta parece pedir encerramento.
Mas há uma inteligência de parentesco desconhecido nisso tudo, entre peixes, humanóides e dinossauros. Trata-se de suportar a ambiguidade de continuar desejando em uma paisagem que não promete permanência, que anuncia o horror e ainda é constrangedoramente bela. Comer sabendo que há perda – de tudo.
O fim lento produz uma ética estranha. Ele pergunta o que ainda merece gesto quando a ideia de futuro perde prestígio. Uma planta? Um banho? Um texto? Um encontro? Uma panela esquecida no fogo não como símbolo, mas como risco real. A lua não como metáfora, mas como coisa insistente no céu, indiferente ao nosso vocabulário.
Talvez viver durante o fim seja aceitar uma vida sem personagem central. Uma vida sem cena definitiva. Uma vida que não se organiza em antes, clímax e depois. Uma vida mais parecida com sedimento: restos sobre restos, sal, gordura, poeira, pele, notícia, sonho e porra mal direcionada.
Não olho com pose cínica de quem se acredita acima da esperança – o cinismo sempre me foi apenas uma forma mais elegante de obediência. Nasci querendo outra coisa, embora ainda até hoje não saiba o nome – e tenho alguma estranha certeza que não haverá.
Quero aprender com o peixe que aparece onde não deveria. Não porque ele preveja terremotos. Mas porque ele obriga a praia a olhar para o fundo.
Talvez a pergunta não seja o que fazer antes que tudo acabe. Essa pergunta ainda supõe prazo, contagem, sirene. Supõe que estamos antes de alguma coisa. Supõe que o fim chegará com pontualidade suficiente para organizarmos uma resposta.
A pergunta? Outra.
O que continua sendo feito quando o fim já começou e, mesmo assim, demora?
Os peixes e os fins sempre voltam e me puxam pelo tornozelo.
Maria Olivia Aporia nascida em 1995 em São Paulo, mora no Rio de Janeiro. É escritora, poeta, artista visual e produtora cultural. Formada em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP, pós graduada em artes visuais pela FAAP-SP e foi estudante do COS, Núcleo de Estúdos de Semiótica da PUC-SP. Transita entre literatura, artes visuais, memória, corpo, fé, desejo e ruína. Sua escrita nasce do atrito entre delicadeza e brutalidade: investiga as formas de sobreviver ao amor, à fome, à cidade, à família e às pequenas catástrofes íntimas que moldam uma vida. Escreve desde que sonha e grita porque tem garganta.
Seu livro de estreia, Bem onde nascem as azinhas e vez ou outra se abrem as crateras, está em pré-venda na lojinha da Casa Philos. Na obra, a artista constrói uma linguagem visceral e luminosa, onde o cotidiano se mistura ao sonho, ao rito e à ferida. Sua obra afirma uma voz feminina contemporânea, aguda e sensível, capaz de transformar queda em imagem, cicatriz em pensamento e abismo em literatura. COMPRE JÁ O SEU!